Cientificismo e anticlericalismo

A consolidação do Estado nacional como instituição, a intensificação do comércio e o aperfeiçoamento da tecnologia militar contribuíram para aumentar o interesse pelas realizações técnicas. O Renascimento, primeiro na Itália e depois no resto da Europa, contribuiu com uma visão mais completa dos clássicos da antiguidade e levou ao humanismo, que concebia o homem como imagem de Deus, capaz e digno de criar. Os antigos modelos teóricos já não comportavam o volume gigantesco dos novos conhecimentos e, por isso, a maior parte das perguntas ficava sem resposta. Era preciso estabelecer um modelo básico e uma metodologia que servissem de orientação para os novos estudos. Esses recursos foram fornecidos por Copérnico, Galileu, Newton e outros cientistas. Já no século XIX surgiu um novo enfoque das ciências, marcado de certa forma pela descoberta do mundo microscópico e pela formulação de modelos atômicos. A conexão entre as forças elétricas e magnéticas deu origem a uma teoria unitária das modalidades físicas de ação recíproca que se mantém até hoje.

Assim, o “cientificismo” é a doutrina dos que consideram os conhecimentos científicos como definitivos. Ele tem a razão como base e pode ser tomado como uma doutrina semelhante ao racionalismo. Ele pode ser resumido na seguinte afirmação: "Tudo é explicável pela Ciência". Pontos defendidos pelo cientificismo:

  1. Somente o conhecimento científico é um conhecimento verdadeiro e real, isto é, somente aquilo que pode ser expresso quantitativamente ou ser formalizado, ou ser repetido à vontade sob condições de laboratório, pode ser o conteúdo de um verdadeiro conhecimento.
  2. Tudo o que pode ser expresso de forma coerente em termos quantitativos, ou pode ser repetido sob condições de laboratório, é objeto do conhecimento científico e, por isso, válido e aceitável.
  3. Concepção mecanicista, formalista ou analista da natureza: átomos e moléculas e suas combinações podem ser inteiramente descritos segundo leis matemáticas da física das partículas elementares; a vida da célula em termos de moléculas. No limite, o mundo não é senão uma estrutura particular no seio da matemática.
  4. Somente os especialistas são os donos da verdade.
  5. A ciência e a tecnologia provinda da ciência podem resolver os problemas do ser humano, e somente elas.
  6. Se um especialista não basta para abarcar todos os campos envolvidos, recorra-se a um conjunto de especialistas.
  7. Ciência, objeto de estudo e o cientistas são vistos como entidades distintas e não influenciáveis. Em outras palavras, o que os cientistas pesquisam e estudam são objetos externos e que existe independente da ideologia subjacente. A ciência é vista como a grande e a única verdadeira forma de conhecimento. Não há necessidade de se questionar as agências fomentadoras das pesquisas e nem a metodologia empregada pelos cientistas.

 

O anticlericalismo é um movimento histórico que se caracteriza por condenar a influência dominante de instituições religiosas, especialmente do clero da Igreja Católica (padres, sacerdotes), sobre aspectos sociais e políticos da vida pública. Sua atitude denota uma crítica à instituição eclesiástica e à hierarquia católica em geral. Não implica necessariamente em anticristianismo. Pode-se ser anticlerical e cristão. O anticlericalismo propugna pela separação e não interferência entre as esferas do poder religioso e do civil. O ativista anticlerical critica a ação política das instituições religiosas. O anticlericalismo é mais freqüente no cristianismo, mas há atitudes anticlericais nas demais religiões. O anticlericalismo foi um sentimento presente no iluminismo, revolução francesa, revoluções proletárias e/ou socialistas. Como conseqüência, existem países laicos que barraram (ou reduziram) a influencia clerical em sua política (e até mesmo estatizando as propriedades clericais). O anticlericalismo difere do chamado laicismo, dado implicar uma hostilidade aberta face ao mundo clerical, pelo fato deste ter influência social ou política. O laicismo apenas rejeita a influência da Igreja na esfera pública, considerando que os assuntos religiosos pertencem à esfera privada de cada indivíduo. O anticlericalismo contemporâneo remonta ao anticongreganismo iluminista, sobretudo marcado pelo espírito de perseguição aos jesuítas por Pombal, e notamos várias outras ondas desde a Revolução Francesa, que teve os seus principais picos no movimento da unificação italiana, na Kulturkampf de Bismarck, entre 1871 e 1878, e no modelo da Terceira República francesa, marcada pelo positivismo.

A Igreja teve várias reações: Pio IX em 1864, edito a bula Syllabus, onde incluiu, entre os oitenta erros que deviam ser reprovados pelos católicos, o racionalismo, o naturalismo e o liberalismo, porque este consideraria que a autoridade não é mais do que a soma do número e das forças materiais. Leão XIII em 1891, com a Rerum Novarum, admitiu que os católicos passassem a entrar nas regras do jogo do liberalismo.